quarta-feira, 23 de outubro de 2013

MINHA JORNADA PELO MUNDO DA APRENDIZAGEM



Entende-se memorial de formação como um gênero predominantemente narrativo, circunstanciado e analítico, que trata do processo de formação de um determinado período. Combina elementos de textos narrativos com elementos de textos expositivos.
Essa foi a proposta que o curso de Pedagogia da UNOPAR fez aos alunos do segundo semestre de 2013, ou seja, compor um relato que expusesse o memorial de formação de cada um de nós, o que comporá a base para que entendamos o que seja pedagogia, tanto no que ela pretende ser como de fato é.
Portanto, segue-se no desenvolvimento desse trabalho um pequeno relato de minha infância e adolescência e, também, alguns fatos relativos à minha juventude e vida adulta que me conferiram atualmente a compreensão do motivo de estar cursando pedagogia.
Ressalto que ao relatar minha trajetória escolar desde o início dela, não posso deixar de enfatizar que meus pais sempre me educaram com esmero e me proporcionaram, mesmo com dificuldades em certos momentos, as melhores oportunidades que pudessem me levar a descobrir esse mundo maravilhoso das palavras. Por saberem da minha paixão, sempre me incentivaram a leitura (comprando livros ou me levando a bibliotecas, algo que eu amava frequentar e que hoje não posso, por não ter uma no município que resido), como também me ensinaram a conviver com outros de maneira ética e moralmente correta.


memórias da minha jornada pelo mundo dA APRENDIZAGEM

Palavras, seus conceitos, suas formas, como que as letras se juntavam e têm tais sons, isso, e muito mais, foi o que desde que “me entendi como gente” me atraiu, chamou a atenção dos meus olhos e ouvidos e, portanto, as imagens da tenra infância que ainda trago na memória, são formadas pelo desejo de conhecer as letras: como elas eram desenhadas e como tinham aquele som e porque duas ou mais palavras com sons diferentes poderiam ter o mesmo significado. Digo isso, pois saí do Brasil com um ano e meio e fui criada até os cinco anos de idade em Accra (Gana) e, portanto, meus pais me deram a oportunidade de ter duas línguas maternas, o português (que era ensinado por minha mãe) e o inglês (ensinado por meu pai). Além dessas duas línguas, havia também os dialetos que eram falados ao meu redor e que fui naturalmente aprendendo, chegando a compreender em média uns cinco dialetos diferentes. Portanto, como eu amava saber o que significava uma palavra nova! Sempre estava perguntando e até mesmo expressando em uma mesma fala vários idiomas, o que me tornava até uma criança “engraçada”, ou seja, que falava de modo diferente e fazia com que os adultos dessem gargalhadas. Isso nunca me incomodou, pois o que eu desejava era usar todas as novas palavras que conhecia no meu vocabulário infantil.
Goethe uma vez disse que “no mundo há muitas palavras, mas poucos ecos.” E isso é uma realidade, pois há muitas palavras que acabam não sendo conhecidas e faladas por não se ter o cuidado de lhe darem a projeção necessária, como forma de ser falada, escrita e, principalmente, o seu significado.
Ainda em Gana, idos anos 70, iniciei minha jornada educacional, sendo aluna de um colégio frequentado pelos filhos de vários estrangeiros que moravam na cidade. Isso foi um privilégio! Pois consegui ser matriculada em tal instituição por ser de uma família estrangeira legalmente residindo naquele país e, portanto, apta a frequentar uma instituição sustentada pelas embaixadas brasileira e de outras nacionalidades que estavam naquele país. Convivi com crianças de várias nações nessa época: brasileiros, portugueses, americanos, chineses, africanos e outros. O colégio não fazia distinção entre nós, pelo contrário, os professores (uma branca, que nos ensinava a ler, escrever e calcular, e um negro que comandava a educação física e recreativa) sempre procuraram nos mostrar que diferenças existem e que devemos respeitá-las e aprender com elas. Aproveitei disso! Como nunca tive problemas com diferenças físicas, como cor da pele, saía questionando aos meus colegas, em inglês, como era tal palavra na sua língua original. E assim aumentava meu vocabulário e comecei a escrever minhas primeiras palavras.
Pelo que minha memória me revela, vejo que havia naquela época (1975) em Gana colégios já conscientes sobre a diversidade em todos os seus aspectos e que procuravam educar seus alunos para que compreendessem e respeitassem as diferenças.
Como já disse, minha infância foi no exterior, mas não residi apenas em Gana. Por ser filha de missionários, tive a oportunidade de também morar nos Estados Unidos e em Portugal.
Nos Estados Unidos frequentei um colégio público apenas por um ano (1978). Já conhecia algumas palavras, portanto não tive dificuldade de adaptação. Lembro-me que por já conhecer algumas das lições que eram dadas, a professora sempre me encontrava no canto dos livros, que ficava dentro da sala de aula. No intervalo, minha atenção era mais voltada para ele também.
Foi em Lisboa, Portugal, que fiz o primário (o que hoje denominamos de ensino fundamental, primeiros anos). Foi em um colégio público, no horário matutino. Minha professora chamava-se Ana Vitória, uma típica portuguesa, que tinha seus quarenta e poucos anos, forte, cabelos curtos e que sempre estava maquiada. Tive um pouco de dificuldade no primeiro ano, pois havia estudado sempre em colégios de língua inglesa e, com isso, a maioria das palavras que eu já sabia rudimentarmente escrever eram dessa língua. Mas me lembro bem da atenção que a professora tinha em relação às minhas dificuldades, sempre me mostrando o novo modo de se escrever a mesma palavra, só que na língua portuguesa. O cuidado que ela tinha com nossa educação era demonstrado pelo esmero ao ensinar: chegávamos em sala de aula e o quadro verde já estava todo desenhado com diferentes cores de giz, com a nova letra ou palavra que iríamos aprender naquele dia. Quando íamos para o recreio, uma outra professora nos acompanhava e ela ficava em sala, para apagar aqueles primeiros ensinamentos relativos às palavras e colocar os relativos aos números. Estudávamos no horário matutino e o intervalo tinha uma hora de duração, onde nos alimentávamos e brincávamos. Em um período desse intervalo os professores que ficavam conosco no pátio, direcionavam sempre algum exercício físico ou recreação direcionada para algum ensinamento social, moral ou ético. Outro fato interessante desse meu período escolar, é que a mesma professora, Ana Vitória, foi quem me acompanhou do primeiro ao quarto ano, uma característica da educação fundamental daquele país, o que confere à criança mais segurança no relacionamento professor × aluno. Ao término do quarto ano, o professor inicia mais um período de quatro anos com outras crianças. Caso alguma das crianças tenha que mudar de colégio dentro desse período, é feito um relatório detalhado pelo professor que a acompanha e entregue ao novo professor no outro colégio.
Posso dizer que isso contribuiu muito para que eu tivesse uma base educacional muito bem constituída, conferindo-me uma formação de caráter mais bem estruturada com a associação da educação que obtive formalmente e com a recebida no meu lar. Ainda possuo até hoje o livro onde fui alfabetizada, cujo título é “Saltarico”.
E as palavras?
Estas começaram a expor meus pensamentos por meio de poesias e textos, o que me concedeu sempre uma boa conceituação em português. Sempre tive dificuldade com os números, mas com as palavras nem um pouco. Afinal, eu era fascinada por elas e, por isso, sempre procurava conhecer mais um pouco. Tanto que foi nessa época que adquiri o hábito de não apenas ler livros em demasia (conquanto que não ache demasiado ler), mas também a ler dicionários, tanto de definições como de sinônimos, e também a escrever.
Chegando ao Brasil em 1981, fiz a segunda fase do ensino fundamental e médio em colégio privados. Nunca fui uma aluna excelente, mas mediana, devido à minha total desatenção nas aulas que não me atraiam. Estudava-as por obrigação, mas não por paixão. Tinha um convívio com os outros colegas de turma saudável, sendo sempre procurada quando tinham dificuldades em escrever algum trabalho ou fazer alguma redação. Lembro que participava sempre dos concursos de poesias e, em um deles, fui premiada “virtualmente” nos dois primeiros lugares: em primeiro ficou uma colega que frequentava uma série abaixo da minha, mas que pediu um poema meu para poder participar, e o segundo lugar foi meu.
Da segunda fase do ensino fundamental tenho recordações de alguns professores que foram fundamentais para que eu sempre lograsse êxito em minhas conceituações: a de biologia, Aparecida, e o e matemática, Cleiton. Aparecida era dócil no falar, sensibilizava-se conosco, alunos, sempre procurando saber quais eram nossas reais dificuldades. Lembro que pelo fato de sempre ter facilidade em compor textos e trabalhos, quando eu estava com deficiência em algum tema específico da biologia, ela solicitava que eu fizesse um trabalho, que deveria ser escrito à mão e em papel almaço pautado. Adorava isso, pois eu ia para a biblioteca (naquela época não tínhamos a facilidade da internet) e pegava livros relativos ao tema, levava para casa e mergulhava na confecção do trabalho. Sempre fui mais afeita a compor trabalhos do que a realizar testes e provas. Estes me davam (e até hoje dão) um certo bloqueio, famoso “branco”, e isso prejudicava meus conceitos.
No ensino médio fui para outro colégio privado, na cidade do Rio de Janeiro. Lá convivi com alunos de nível social considerado como classe média alta e alta. Tive dificuldades de relacionar com os mesmos, por ser aluna bolsista (estudei em colégios particulares, mas por meio de bolsas de estudo). Dos poucos amigos que fiz, tenho relacionamento apenas com dois até o dia de hoje. Creio que pelo fato de no término do ensino médio ter ido para o interior do estado do Rio de Janeiro, a uma distância de mais ou menos 360 quilômetros deles. Como as distâncias foram virtualmente diminuídas há poucos anos, com o advento das redes sociais, consegui localizar apenas um deles e, infelizmente, fiquei triste ao saber que alguns professores que muito estimava e um amigo, que era o líder da nossa turma, faleceram. Entre esses professores do ensino médio, dois se destacaram: Luiz, de história, e Waldir, de Educação Física. Luiz sempre dava suas aulas com um esmero, paixão, que nos prendia a atenção. Nas suas provas ele sempre me dizia que eu era a “escritora”, por relatar detalhadamente cada pergunta, sendo por vezes até redundante. Waldir era o paizão, preocupava-se até mesmo com nossa vida emocional e, por isso, sempre o procurávamos para receber algum conselho.
Relendo o que acabei de escrever, percebo que os professores que mais marcaram minhas memórias não têm a ver com português e literatura. Parei e fiquei pensando sobre isso. Achei interessante por perceber que mesmo sendo uma boa aluna nessas matérias, os que a lecionaram nunca me fizeram ir além do que ensinavam e, por isso, não foram tão marcantes. Já os outros, me instigavam a mais, sempre me mostravam que o saber é para ser buscado como um tesouro precioso e que eles estavam me dando o mapa para encontra-lo. Devo a eles esse meu desejo ainda latente em relação ao saber mais.
Não tive oportunidade de fazer uma graduação assim que terminei o ensino médio e quanto tive, as duas vezes foram desastrosas, pois procurei seguir áreas que de imediato não foram realmente desejadas, ou seja, estava fazendo uma graduação apenas para dizer que tinha um diploma. Não terminei ambas.
Sou grata aos meus professores do ensino fundamental e médio. Pois me proporcionaram uma excelente formação educacional, conferindo-me condições de ser uma cidadã que procura ser bem conceituada em todas as áreas de sua vida.
Não pretendia fazer o curso de pedagogia, sou sincera. Mas devido ao que vivi na minha jornada de aprendizado (relatada acima) e ao que tenho visto meus filhos vivenciarem nas suas respectivas jornadas, alguns questionamentos foram por mim levantados, que se tornaram uma certa “agonia” de insatisfação e, portanto, quando surgiu uma oportunidade de tempo e facilidade (sou mais afeita a estudar sozinha e o curso à distância propicia isso), procurei logo tal formação. Em meu convívio religioso sou atuante na área de educação, sendo professora de teologia em algumas matérias de um curso médio à distância em minha denominação local. Além disso, contínuo com a paixão pelo saber mais, sempre lendo vários temas relativos à educação, sociologia, filosofia, psicologia e teologia, e também escrevendo (possuo uma página pessoal na internet onde exponho algumas das minhas divagações escriturárias).
Portanto, eis-me aqui cursando uma graduação que acredito que me conferirá mais ferramentas e condições de exercer minha cidadania e, principalmente, propiciar às novas gerações que adentram uma sala de aula o mesmo prazer em seguir a jornada do aprendizado que eu tive.

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